"Em comunicação não basta focar o destino é preciso observar a ponte" Carlos Parente (Obrigado! Van Gogh)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

A dificuldade do diagnóstico

Material bem interessante do Portal Nós da Comunicação sobre diagnóstico em relação a Internet, vale a pena conferir esse e outros textos no portal. Sempre nos colocando a par do que acontece na comunicação no Brasil e no mundo....

A dificuldade do diagnóstico

Carlos Nepomuceno




Leio, leio e leio.

Ouço, ouço e ouço.

E quanto mais o faço, mais considero que nosso diagnóstico com relação à internet ainda é muito precário.

Dois exemplos?

A matéria com os assessores de comunicação das grandes empresas, intitulada ‘Sem fronteiras’, e a da ‘Business Week’, que saiu no ‘Valor’, no dia 13.

Fala-se, mas não se sabe exatamente por onde e para onde estamos caminhando.

Abaixo, alguns pontos fundamentais para você refletir antes de sair por aí com mirabolantes projetos estratégicos.

1- A internet traz para a sociedade um novo ambiente de troca de conhecimento humano.

Ela inaugura um novo ciclo de nossa caminhada no planeta redondo.

2- A tecnologia da internet, portanto, por sua natureza, altera a forma do controle da informação anterior.

Isso não ocorre sempre, muito raramente, e tem largas consequências na sociedade.

Antes, os canais (rádio, tevês e jornais) eram restritos, caros e fechados, limitados a um determinado grupo que se estabeleceu no poder e fez desses canais espaços para manter seus interesses.

Com a internet, abriram-se novas portas, nas quais novas ideias de novos atores passam a circular.

Ou seja, apesar de ser impulsionada por uma tecnologia, a sociedade começa a mudar de forma ampla, em função de uma nova forma de troca de ideias, que vai exigir um novo modelo de controle daqueles que desejam estar no poder e ver seus interesses garantidos.

Sob esse cenário, em função dos diferentes canais e da capacidade de difusão das notícias, o atual nível de descentralização impede mais e mais que modelos de controle anteriores continuem a funcionar no curto, mais radicalmente no médio, e de forma impraticável no longo prazo.

- Antes, se trabalhava com o controle da escassez.
- Hoje, lida-se com o descontrole da abundância.
- Antes, se impunha, de certa forma, a informação pela imposição dos poucos canais.
- Hoje, deve-se trabalhar com a adesão das pessoas na multiplicação infinita dos inúmeros canais.

Estamos, assim, diante de uma ruptura radical da forma de controle informacional da sociedade.

3- Por consequência, trata-se de uma mudança nos moldes do poder.

(Não, não temos teorias sobre esse fenômeno, pois são tão raros e tão pouco estudados, que têm uma dimensão tamanha e uma nulidade teórica absurda.)

Para podermos ter a dimensão de seus próximos passos, precisamos olhar na história um momento em que esse fato tenha ocorrido de forma similar.

No momento, identificamos com razoável bibliografia a chegada do livro impresso, no qual autores de todo o tipo, apoiados por uma nova classe de editores empreendedores (similar ao que ocorre hoje na internet), passaram a espalhar novas ideias pela sociedade e romperam com o modelo de controle anterior.

As estruturas hierarquizadas da Igreja e da Monarquia começaram a viver momentos de radical transformação, pois seus poderes estavam justamente estruturados no controle da informação do livro manuscrito, do qual tinham a capacidade de publicar, evitar que chegassem ao conjunto da sociedade, e podiam, assim, manipular e distorcer a realidade conforme seus interesses.

Além de, rapidamente, administrar com facilidade grandes crises.

Assim, mudanças nas formas do controle da informação, muito raras na sociedade, quando ocorrem, são desestruturantes de modelos de poder em todos os níveis.

Trata-se de mudança na base de troca de ideias humanas, e o que parecia ‘normal’ e ‘natural’ passa a ser questionado com novos tipos de ideias, agrupamentos, mobilizações.

Assim, não podemos olhar a internet apenas como uma ‘nova mídia’ ou como uma ‘nova forma de comunicação’,

Sim, ela é, como foi o rádio e a tevê, por exemplo.

Mas traz em si, por suas características de baixo custo e independência das pontas, um novo ambiente informacional, sobre o qual o poder estabelecido no modelo de comunicação anterior não tem controle nos antigos modelos.

É preciso compreender o novo tipo de ambiente se quiser dominar o novo planeta com relativa chance de sucesso.

É preciso jogar um novo jogo.

4- E é disso que se trata projetos de Empresa 2.0, Governo 2.0, Escolas 2.0. Procurar uma nova forma de estar no mundo, compatível com o novo ambiente, que permita A, B ou C continuar a manter o controle de produzir, governar, ensinar, etc..

Assim, para efeito de diagnóstico, não devemos pensar em nos inserir em uma nova mídia ou em uma nova forma de comunicação, mas pensar que estamos entrando em um mundo novo, no qual novas regras sociais, hoje ainda incipientes, vão reger novas instituições.

Meu diagnóstico, portanto, é esse.

Se não concorda, conteste-o, debata-o, mas é em torno da avaliação do tamanho dessa mudança que está o futuro de muitas organizações.

É preciso sair do piloto automático, estudar esse novo mundo de forma profunda e apontar para mudanças estratégicas de longo prazo, caso queira realmente se inserir nesse novo contexto.

E não achar que pode ou não pode entrar nas redes sociais, como se fosse uma escolha.

Ou que agora estamos lá dentro e começando a entender o processo.

Como se pudesse ser entendido sem a compreensão de que o que muda é a própria organização e não uma nova política de comunicação ou marketing!!!!

Essa é a forma mais barata e eficaz de se chegar lá: aprofundando a ruptura e começando a traçar as mudanças necessárias na base da gestão da organização para a mudança no novo mundo 2.0!

A tentativa e o erro não só são incertos, mas muito caros diante da ruptura dessa proporção!

As ações e questões que devemos, assim, nos propor são:

Como será essa nossa nova sociedade então?
E como eu e minha organização vamos nos ajustar a ela, de tal forma a jogar o novo jogo do poder?

Tendo, assim, o novo ambiente de comunicação como apenas um canal para anunciar e compartilhar essa mudança com seus atores de fato, e não de mentira.

Todo o resto que foge dessa lógica, a meu ver, trata-se de um diagnóstico errado, com consequências danosas e pífios resultados.

É aplicar remédios que só vão piorar mais e mais a febre que nos assola!

Que dizes?


O artigo foi anteriormente publicado no blog ‘Nepôsts – Rascunhos Compartilhados’.


Carlos Nepomuceno é jornalista, pesquisador, consultor e professor da UFRJ, da Facha e do Senac.
Twitter: @cnepomuceno

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Cultura, uma construção coletiva

Cândida Nobre


A experiência que temos com um produto cultural, hoje, é repleta de negociações. Seja uma música, um livro ou um filme, a tensão é quase sempre a mesma. Pode ver, mas não copiar. Já que é só para você, copia, mas não compartilha. Tá, se é para um amigo (só um!), compartilha, vai, mas não muda. Tudo bem, até que dá para mudar, mas antes pede ao “dono” e, se ele deixar, é preciso colocar o nome, explicar, rotular, selar e carimbar, afinal de contas, cultura que é cultura, para ser bem aceita, assim, de papel passado, não pode ser órfã, precisa de uma paternidade autoral. E não é uma paternidade qualquer, mas um nome de força, reputação e autoridade.

Como se vê, da Revolução Industrial até então, a livre circulação da cultura não é tarefa tão simples. Mas nem sempre foi assim. Apesar de a gente associar o comportamento de consumo mais autônomo a técnicas e tecnologias recentes, é de espantar o quanto a necessidade de liberdade no manuseio de objetos culturais é antiga.

Na verdade, é como se tivéssemos findando um período em que a burocratização da produção e difusão cultural está, finalmente, dando espaço mais uma vez à colaboração. Assim como era quando a cultura tinha suas bases no domínio público, quando o contador da história interessava menos que a própria história, quando era possível pegar trechos de criações de sua época e construir outra narrativa.

Até o momento, precisamos esperar quase um século para que uma obra entre em domínio público (e isso não é força de expressão). Todavia, não é tão difícil verificar, hoje, maior autonomia, tanto do criador – que agora não precisa de intermediários para tornar pública sua obra – como da própria obra, que não mais se encerra ao chegar ao público, tendo ele a possibilidade de modificá-la, recombiná-la com elementos de seu repertório e devolvê-la à apreciação da sociedade.

Vemos a internet e as tecnologias digitais como algo que veio quebrar as proteções mais rígidas dos produtos culturais – e veio mesmo. Contudo, mais do que romper, trouxe novas possibilidades de criação, que nos retomam àquilo que é básico para o avanço da cultura e da sociedade, afinal de contas, a cultura é construção coletiva em qualquer época e lugar do mundo e não precisa de donos, intermediários ou proteções, mas, sobretudo, da participação de todos.

Cândida Nobre é jornalista, publicitária e mestranda do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Culturas Midiáticas, na Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

*material do portal Nós da Comunicação do ciclo Comunicar Cultura, disponível em:
http://www.nosdacomunicacao.com/panorama_interna.asp?panorama=196&tipo=G