"Em comunicação não basta focar o destino é preciso observar a ponte" Carlos Parente (Obrigado! Van Gogh)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Mirian Goldenberg: ‘A risada é uma forma de comunicação importantíssima para a cultura brasileira’

Adorei essa entrevista, é realmente a forma que vejo as coisas. Há que recrimine uma boa turma que dá muita risada durante o dia, eu acredito que essa turma só tem a produzir mais e melhor.


Dani Cabraíba


Mirian Goldenberg: ‘A risada é uma forma de comunicação importantíssima para a cultura brasileira’

André Bürger

Homens e mulheres: universos completamente diferentes em diversos aspectos, inclusive na forma de lidar com o humor e a felicidade. Que o diga a antropóloga e escritora Mirian Goldenberg. A pesquisadora atualmente realiza o estudo ‘A cultura da risada’, uma análise sobre o riso e seu papel nas relações e no comportamento de ambos os sexos perante amigos, familiares e no ambiente profissional.

Em entrevista ao Nós da Comunicação, a professora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) falou sobre a importância de se buscar a felicidade, principalmente por parte das mulheres, muitas vezes pressionadas pelo mercado de trabalho e pela sociedade.

Mirian, autora dos livros 'Toda mulher é meio Leila Diniz' (1996) e 'De perto ninguém é normal' (2004), ambos publicados pela editora Record, comentou também que, atualmente, muitos profissionais estão procurando atividades e empregos que realmente lhes deem prazer, deixando o salário como questão secundária. Essa entrevista foi concedida para uma reportagem sobre a felicidade possível, a ser publicada na edição nº 15 da revista Comunicação 360º.


Nós da Comunicação – Em sua opinião, o que é preciso para ser feliz?
Mirian Goldenberg – A primeira coisa é entender que risada e felicidade não estão interligadas. O que percebo nas minhas pesquisas é que as pessoas que se aceitam mais e são mais apaixonadas pelo que fazem, seja no trabalho ou no cotidiano, são mais felizes. Outra característica é que essas pessoas não ficam se comparando tanto com os outros ou com seus bens. Ressalto que a aceitação não é no sentido passivo. Na verdade, é uma aceitação apaixonada pela própria vida.

Nós da Comunicação – Consultores costumam dizer que devemos fazer aquilo que realmente nos dá prazer. Será que muitas vezes, devido às questões financeiras, não deixamos essas profissões de lado para garantir um salário ao final do mês?
Mirian Goldenberg – Tenho observado, por meio das pesquisas realizadas, uma tendência dos entrevistados em procurar fazer aquilo que realmente sentem prazer. Outra atitude é colocar o mínimo de energia naquilo que as pessoas não extraem prazer, realizando o trabalho de forma bem feita mas burocrática para, no tempo livre, fazer o que realmente gosta; seja escrever um livro, dar palestras etc. Percebo também, além desses dois movimentos, profissionais tentando buscar alegria naquilo que fazem e valorizando menos o dinheiro.

Nós da Comunicação – Em recente seminário na UFRJ, “Ser Feliz hoje: um imperativo à felicidade”, falou-se bastante em um conceito de felicidade preestabelecido pelo mercado. Esse tipo de imposição não acaba atrapalhando nossas buscas pessoais?
Mirian Goldenberg – Nos últimos dois meses, se não me engano, foram realizados cerca de cinco ou seis seminários sobre felicidade. Eu cheguei a participar de quatro. O termo está, mais do que nunca, em moda. Isso significa que as pessoas querem discutir sobre isso e estão desejando encontrar uma felicidade própria. É como se houvesse uma ruptura com aquele modelo de obrigações sociais. Agora, esses homens e mulheres estão se perguntando o que realmente querem fazer. E elas querem ser felizes.

A mídia e o mercado refletem esse desejo. Talvez porque essas pessoas ainda não saibam o que é ser feliz ou não queiram usar comprimidos e drogas para ser feliz. Mas é um anseio muito presente em toda cultura ocidental. Não acredito que seja algo artificial provocado pelo mercado. Eu inverteria a equação. O mercado é que responde às demandas da sociedade.

Na minha pesquisa, aparece outra categoria chamada liberdade, algo que as mulheres também estão buscando. Lógico que o mercado e a mídia podem usar anseios, mas tenho minhas dúvidas se eles podes produzir e provocar um novo anseio. O mercado está muito mais atento às tendências do que as pessoas realmente querem. Nós, pesquisadores, também somos um reflexo do que está acontecendo. Do contrário, por que estaríamos fazendo tanto seminário sobre felicidade?

Nós da Comunicação – Qual a importância de se cultivar o humor no cotidiano?
Mirian Goldenberg – Realizei uma pesquisa entre os anos de 1998 e 2000 sobre relacionamento. Cheguei à conclusão de que o bom humor provoca o riso do outro. Ter bom humor e uma postura mais leve perante as questões diárias são elementos fundamentais para o bom relacionamento.

A risada é uma forma de comunicação importantíssima para a cultura brasileira. Eu passei meses na Alemanha e lá eles se comunicam de outras formas. Aqui o sorriso é, muitas vezes, mais importante do que a risada. Basta pegarmos como exemplo a questão dos candidatos à presidência, que nesse ano eram obrigados a rir e sorrir. Ser bem-humorado era uma forma de gerar aproximação com o eleitorado.

Já dizia Gilberto Freire no livro ‘Casa-grande e Senzala’ (publicado originalmente em 1933) que a risada é uma forma de aproximação entre classes sociais, antigos senhores e escravos. A risada faz parte da cultura brasileira. Ela é fundamental não só na sedução, mas em todos os outros ambientes. Outro valor da nossa cultura é justamente ser mais leve e bem-humorado. Uma pessoa que censura o humor dos outros é desagradável. Nós, brasileiros, temos um humor solto que provoca a risada. Por isso as mulheres invejam tanto a capacidade do homem de sorrir.

Nós da Comunicação – E no ambiente de trabalho? Fale um pouco sobre sua pesquisa realizada recentemente sobre o riso.
Mirian Goldenberg – Esse ano realizei um novo estudo, só sobre humor, com 250 pessoas, 125 homens e 125 mulheres. Todos de classe média. As diferenças foram gritantes: 84% dos homens riem muito. Eles riem com amigos, tanto no trabalho quanto fora dele. Para eles, a risada é algo fundamental até para situações de conflito ou para apartar alguma briga. Pude perceber que os homens usam a risada como elemento de aproximação.

Já entre as mulheres, 68% dizem que riem com namorados, família, filhos e com amigas. Segundo as respostas, elas não gostam muito de rir no ambiente de trabalho, pois têm preocupação em preservar sua imagem e costumam levar tudo a sério. A última coisa com que você pode brincar é com a aparência e o corpo de uma mulher. No trabalho, os homens riem mais dessas questões, enquanto elas estão extremamente preocupadas em passar uma imagem de seriedade.

Outro dado interessante é que 60% dos homens alegam rir o suficiente. Já entre as mulheres, 60% gostariam de rir mais. Rir mais permite que o ambiente de trabalho fique mais leve e relaxado, coisas que ambos os gêneros valorizam.Entretanto, as mulheres têm mais dificuldade para isso.

Nós da Comunicação – Com base nas respostas obtidas em sua recente pesquisa, você acredita que as pressões do mercado e da sociedade, de alguma forma reprimem as mulheres e as impedem de serem mais felizes?
Mirian Goldenberg – Na minha pesquisa, pude perceber que as mulheres dizem ser muito mais ocupadas e preocupadas. Ao mesmo tempo, elas têm que provar muito mais seu valor do que os homens. Não diria que é uma pressão só do mercado, mas também da sociedade. É verdade que existe uma pressão cultural, mas se elas invejam tanto essa liberdade, deveriam trabalhar isso internamente e não esperar que a própria cultura mude.

As mulheres deveriam se divertir mais, sentir mais prazer com a vida e ver que, mesmo com a cultura pressionando, é possível ser feliz. Não adianta ficar se cobrando tanto. Nós temos que fazer isso porque ninguém vai fazê-lo por nós. Eu chamo isso de microrrevolução, uma revolução do cotidiano.

A mulher alemã escolhe uma coisa ou outra. Já a mulher brasileira quer muitas coisas ao mesmo tempo. Ela não faz essas opções com tranquilidade. Ao mesmo tempo, ela quer provar ser boa em tudo: como mãe, filha, executiva; quer estar antenada, bem informada, ser uma esposa, estar bonita e magra etc. É muita coisa que ela ‘tem que ser’. Isso acaba pesando na vida da mulher. É muito difícil ser leve com todas essas obrigações. Rir das imperfeições e defeitos ajuda. Rir ajuda bastante.


Disponível em:
http://www.nosdacomunicacao.com/panorama_interna.asp?panorama=373&tipo=E

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