"Em comunicação não basta focar o destino é preciso observar a ponte" Carlos Parente (Obrigado! Van Gogh)

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Acordem as lideranças II

Maria Leonor G. Delmas

Retomando a linha de raciocínio iniciada no artigo ‘Acordem as lideranças’ sobre a sonolência das lideranças, vamos pensar em Homero, Hesíodo ou Cícero. Não eram diretores de empresas, mas sabiam que o sono impede a mente de raciocinar com clareza e, essa sonolência deixa de ser reparadora para tornar-se uma sombria ameaça.

Os grandes pensadores clássicos, com suas metáforas entre o sono e a morte permitem uma abertura para a passagem da luz da filosofia, através da qual torna-se possível entender o que é preciso ser buscado pelo mundo das organizações para que seus líderes adormecidos acordem.

Acordem e recomecem a viver.

No momento em que o ser humano tornou-se autoconsciente e passou a desprezar as explicações dos deuses do Olímpio, muitas luzes se apagaram.

Agora, na modernidade, a palavra de Zeus se faz presente outra vez. Surge como um relâmpago nas mentes adormecidas e, acordando-as, libera a percepção do quanto precisam ser cautelosas para que o mundo organizacional não se fracione tão profundamente, empurrando algumas empresas cujos líderes não acordaram, para um abismo escuro e de queda incontrolável.

Ainda calcando na Antiguidade, sabe-se que a palavra INTELIGÊNCIA vem do latim INTELEGERE, ler nas entre linhas, ou seja; perceber o que está escondido no subtexto, o que as palavras dizem sem dizer.

Sábios deuses que ligaram a leitura das entre linhas com a capacidade (inteligência) de entender o escondido texto. Uma INTELEGERE que o texto mítico carrega como contribuição na indicação do caminho para o sucesso empresarial, para a importância de que se curvem os líderes a diversidade de cada colaborador, apontando para o contexto holístico que move a alma das organizações como um todo. Palavras sagradas que colocam em altares o reconhecimento da força, poder e importância dos colaboradores na trajetória dos líderes como o derradeiro atalho para a sobrevivência das organizações em futuro bastante próximo. Escolhi para dar leito a correnteza deste trabalho a narrativa da benção dos deuses e a caixa de Pandora.

As palavras escritas e interpretadas têm minha livre narrativa voltada para o mundo organizacional na modernidade, com suas propostas, sua verdade e suas necessidades.

Cria-se uma analogia entre figuras e situações do mundo mítico e do mundo real. Transporta-se para o mundo tal releitura para o mundo organizacional. Alerta-se, através do mundo dos deuses, os líderes deste século. Constrói-se um paralelo entre deuses e líderes, entre mortais e homens força de trabalho, estes responsáveis pelo desempenho da riqueza gerada pela produção.

...Tocando o coração e a mente das lideranças.

A Deusa-Mãe deu a alguns homens a liderança de suas empresas. Isso os deixava demasiadamente intrigados, inquietos e vaidosos.

Líderes concorrentes olhavam-se curiosos e admirados, e então partiam para buscar a sobrevivência por meio da produção de riquezas e poder e, seu aumento sem medir barreiras ou atitudes para com quem, as de fato, produziam. Lentamente descobriram que essa necessidade poderia ser atendida de várias maneiras.

Certa manhã os líderes seguiram algumas teorias que acenavam com grandes sucessos e retorno produtivo bastante exuberante. Tudo isso em um cenário onde só o belo era percebido. Eles seguiram para o atraente paraíso e começaram a colher os resultados e, a agir freneticamente para que mais e mais resultados fossem produzidos.

Tal movimentação começou a sacudir as estruturas das empresas, mas, pouco atentos aos tremores não perceberam as mudanças que começavam a acontecer sob seus pés. Mas essa cegueira durou pouco. As empresas, que até então se sentiam seguras foram surpreendidas pelo estremecimento do solo. Uma fenda abriu-se no chão, e dela emergiu Pandora, com suas serpentes organizacionais: a soberba, a cegueira, sistemas administrativos incompatíveis com as exigências do futuro e, um processo de liderança aquém do adequado aos novos tempos. Os líderes estavam paralisados de medo e apreensão mas, mesmo assim, a deusa arrastou-os para Sua Aura. “Eu sou Pandora, a Doadora de todos os Presentes”. Então ela retirou a tampa de seu grande jarro.

Dele tirou uma romã (os ensinamentos para a boa convivência), que se tornou uma maçã (relações interpessoais bem elaboradas), que se tornou um limão (processos de comunicação), que se tornou uma ‘pera’ (reconhecimento das competências, seu aproveitamento e valorização).

"Eu trago árvores cheias de flores (pessoas e conhecimento) que dão muitos frutos (colaboradores comprometidos), árvores retorcidas com olivas penduradas (capital intelectual) e essa videira (saúde organizacional) que irá sustentar vocês". A deusa pegou no jarro uma porção de sementes (capital humano) as quais espalhou pelas empresas. “Eu trago a vocês plantas para construir empresas de sucesso e para curar a sono de líderes fechados em si mesmos, para aumento de felicidade e eficácia de resultados. Sob a minha superfície vocês encontrarão minerais e argilas, matéria-prima de inúmeras formas". Ela pegou do jarro duas pedras achatadas. “Atentem ao meu presente: eu trago pederneiras, com faísca brilhantes e cheias de energia”. Então Pandora virou seu jarro de lado, inundando por todas as organizações a sua graça. Os líderes banhavam-se nas cores de sua aura. “Eu trago maravilhas, curiosidade e memória. Eu trago sabedoria. Eu trago justiça com misericórdia. Eu trago laços de cuidado e de comunhão. Eu trago coragem, força e persistência. Eu trago amabilidade para todos os seres. “Eu trago as sementes da paz”.


A Caixa de Pandora e a Criação do Homem

As organizações estavam criadas. A parte ígnea, mais leve, havia se espalhado e formado o firmamento, o véu que cobriria as empresas uma a uma. O ar colocou-se em seguida: saturado nas empresas que teimavam em governar sem generosidade e reconhecimento do outro. A terra, sendo a mais pesada, o lastro para que os processos produtivos pudessem germinar, ficou para baixo e a água, símbolo da vida, representação dos estímulos e motivações para as equipes de trabalho ocupou o ponto inferior, fazendo flutuar esse universo de criadores de riquezas. E neste mundo assim criado, habitavam os líderes e os liderados. Mas faltava a criatura na qual pudesse habitar o espírito divino, o líder maior, de quem ramificasse uma sábia condução de todos os setores e pessoas ali locadas.

Foi então que chegou ao mundo das organizações o titã Prometeu, descendente da antiga raça de deuses destronada por Zeus. O gigante sabia que na terra estava adormecida a semente dos céus. Líderes haviam esquecido que sem o contingente de colaboradores não haveria produção. Por isso apanhou um bocado de argila e molhou com um pouco de água de um rio. Com essa matéria fez o LÍDER, à semelhança dos deuses, para que fosse o mentor da sua equipe. Apanhou das almas dos chefes do passado características boas e más, animando o novo líder.

E Atena, deusa da sabedoria, admirou a criação do filho dos titãs e insuflou naquela imagem de argila o espírito, a sabedoria, o discernimento, a generosidade, a ausência de preconceitos, o sopro divino na arte de liderar.

Foi assim que desapareceram os comandantes autoritários e surgiram os primeiros líderes, que logo povoaram a terra das organizações. Mas faltavam-lhes os conhecimentos sobre os assuntos da terra e do céu, faltava-lhes humildade para reconhecerem a importância e necessidades dos colaboradores.

Vagavam sem saber a arte da construção dos relacionamentos, da agricultura do bom solo, adequado plantio para boa colheita de resultados, da filosofia para buscar o autoconhecimento e o conhecimento do outro. Não sabiam caçar talentos ou pescar o melhor que havia em cada um - e nada sabiam da sua origem divina, de seu real papel diante das pessoas sob sua responsabilidade.

Prometeu se aproximou e ensinou aos líderes todos esses segredos. Inventou o arado (recursos humanos e tecnológicos) para que o líder plantasse a boa vontade e comprometimento dos liderados, a cunhagem das moedas do respeito para que houvesse o comércio de atitudes positivas e, a escrita para melhor comunicação e a mineração para que o tesouro escondido nas mentes dos colaboradores fosse aberto ao bem comum.

Ensinou-lhes a arte da profecia por meio do estudo dos perfis e personalidades e da astronomia para um desempenho preventivo dos problemas que poderiam surgir, enfim todas as artes necessárias ao desenvolvimento da organização.

Ainda faltava-lhes um último dom para que pudessem manter-se vivos, sobrevivendo às tempestades econômicas e sociais: o fogo, a paixão pelo outro, pela organização, pela sociedade beneficiada pela produção que dela saísse. Este dom, entretanto, havia sido negado aos líderes pelo grande Zeus. Porém, Prometeu apanhou um caule do nártex aproximou-se da carruagem de Febo (o Sol) e incendiou o caule, dando aos líderes oportunidade de exercerem a tarefa para a qual estavam destinados de maneira justa, gentil, criativa, semeadora e humanizada.

Com esta tocha, Prometeu entregou o fogo para os líderes, o que dava a eles a possibilidade de gerenciar a empresa e seus liderados de forma grandiosa. Zeus, porém, se irritou ao ver que os líderes possuíram o fogo e que sua vontade fora contrariada. Líderes detentores do fogo da gerência humanizada não se submeteriam ao jugo de tiranos e ditadores. Por isso tramou no Olímpio a sua vingança. Mandou que Hefaístos fizesse uma estátua de uma linda donzela, e chamou-a Pandora - “a que possui todos os dons”, pois cada um dos deuses deu à donzela um dom. Afrodite deu-lhe a beleza, Hermes o dom da fala, Apolo, a música. Ainda vários outros encantos foram colocados na criatura pelos deuses. Encantos esses que Pandora traria para seu encontro com as lideranças das organizações.

Zeus então pediu que cada imortal reservasse um malefício para a humanidade. Esses presentes maléficos foram guardados numa caixa, que a donzela levava às mãos. Pandora, então, desceu a terra, conduzida por Hermes, e aproximou-se de Epimeteu – ‘o que pensa depois’, o irmão de Prometeu – ‘aquele que pensa antes’ e diante dele abriu a tampa do presente de Zeus. Foi então que os líderes, que até aquele momento haviam habitado um mundo, aparentemente, sem doenças ou sofrimentos, viram-se assaltados por inúmeros malefícios. Pandora tornou a fechar a caixa rapidamente, antes que o único benefício que havia na caixa escapasse: a esperança.

Zeus dirigiu então sua fúria contra o próprio Prometeu, mandando que Hefaístos e seus serviçais Crato e Bia (o poder e a violência) acorrentassem o titã a um despenhadeiro do monte Cáucaso.

Mandou ainda uma águia para devorar diariamente o seu fígado que, por ser ele um titã, sempre se regenerava. Seu sofrimento durou por inúmeras Eras, até que Hércules passou por ali e viu o sofrimento do gigante. Abateu a gigantesca águia com uma flecha certeira e libertou o cativo das suas correntes. Entretanto, para que Zeus pudesse ter sua vontade cumprida, o gigante passou a usar um anel com uma pedra retirada do monte. Assim, Zeus poderia sempre afirmar que Prometeu mantinha-se preso ao Cáucaso; ou seja, fracasso que o mundo organizacional, pobre de líderes com foco nas pessoas, está fadado a conviver.

Narrativas fantásticas, metáforas e analogias, a sabedoria dos antigos, recursos que permitem aos líderes do presente o alerta da necessidade da evolução de suas estratégias e atitudes.

O choque cultural da descoberta da riqueza escondida no capital humano das organizações possibilita a desmistificação de teorias da Administração que, se no passado, geraram sucesso, hoje envelheceram e, tornaram-se ineficazes. Pandora guardou a Esperança, pois sabia ser a única capaz de proporcionar a caça à saída e, consequentemente, a vitória aos atos humanos. Neste momento de tantas incertezas e receios, é preciso sair-se dos esconderijos do passado e encarar inevitável necessidade de mudanças, única possibilidade de que se alcance a sobrevivência nas empresas.

O líder dessas empresas com chance de vitória cria para sua equipe um ambiente de colaboração e aprendizagem, onde prestar atenção nas qualidades humanas de seus membros é o início da construção do diferencial competitivo.

Shakespeare pergunta em um de seus poemas barrocos “Sabe de que matéria somos feitos? Da mesma de que são compostos os nossos sonhos.” O ser humano, diferente de outros seres viventes sonha e pode realizá-los. As organizações talvez tenham parado de sonhar, tornando-se muito pragmáticas. O tempo caminhou e, implacável mostrou que sem sonhos o sucesso torna-se efêmero.

Como então solidificar posições neste mundo assombrado pela concorrência? Tornando-se maior que o todo, melhor que tudo, agigantando-se pela força de sonho do líder que, acreditando e confiando no poder do outro, sonha com ele, juntos e, assim com um sonho só, caminham a caminhada dos vencedores.
Imbatíveis, sólidos, imperturbáveis.

*material disponível no Portal Nós da Comunicação. Disponível em:http://www.nosdacomunicacao.com/panorama_interna.asp?panorama=370&tipo=G

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